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Tópico: [WALLTEXT]Violência, arrastões, playboys e coerência, enfim!

  1. #1
    Ex-Presidente do Brasil Avatar de Ayato
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    [WALLTEXT]Violência, arrastões, playboys e coerência, enfim!

    Atenção, o texto não é meu, mas recomendo muito a leitura, de verdade. Eu o vi num comentário neste link: http://www.b9.com.br/60932/podcasts/...ent-2274744502

    Contextualizando, este comentário foi feito em resposta a uma discussão sobre os arrastões no Rio de Janeiro e a reação de parte da população com os justiceiros atacando um ônibus que ia para a periferia.

    Entanto, acredito que essa discussão seja universal, e possa ser aplicada à diversos problemas no Brasil, notadamente o problema da violência e da desigualdade.

    Leiam aí o excelente comentário:

    O "fenômeno" arrastão é muito antigo no RJ. Tão antigo quanto o "menor de rua". Muitos têm na cabeça que esse menor é o faminto, abandonado. Ledo engano. Os famintos são fracos. Até cometem alguns roubos, mas apanham fácil da polícia. Passam mais tempo "esmolando".

    O garoto que "faz um ganho" é diferente. Ele muitas vezes tem sim família, mas ele não concorda que tem que trabalhar e ganhar pouco. Aquela vida irrita ele. E a reação é ir "causar". Fazem arruaças, perturbam pessoas nos ônibus, danificam o transporte público, puxam um cordão aqui, um relógio ali, e os cobiçados celulares. Falam aos berros entre si, batucam, entram sem pagar, dão tapas nas pessoas na rua através da janela do veículo em movimento. Usam bermuda, óculos de sol, tênis ou chinelos, bonés, cordões. Eles não estão com fome nem maltrapilhos, são fisicamente grandes e fortes.http://glo.bo/1LFrJz6*ehttp://oglobo.globo.com/rio/li...

    O arrastão começou quando esse grupo - vamos chamar aqui de "espertalhões" - percebeu que: "unidos venceremos".

    O que aconteceu em Copacabana não é novo. Não tem COMO ser novo. A novidade é a garotada sarada reagir. Veja bem, discordo da reação deles completamente, mas vamos continuar olhando os atores dessa peça e tentar entender que reação foi essa.

    O típico "espertalhão" não sai apenas com os colegas pra fazer arruaça em fim de semana de sol no RJ. Ele deixa de ser o que é nos outros dias? Óbvio que não.

    O "espertalhão" é o garoto que, na escola pública, tá indo só porque "o juiz mandou" (foi pego e foi solto porque é menor, e porque as estruturas de encaminhamento não funcionam), ou porque de alguma forma foi obrigado, senão não estaria ali. Enquanto ele está lá, está fazendo baderna e agredindo professores. Eles inviabilizam as aulas.

    O "espertalhão", quando não dá praia, tá agindo no centro do RJ. (Por favor, vejam com atenção o vídeo a seguir:*http://g1.globo.com/rio-de-jan...*)

    O "espertalhão" vira e mexe tá postando foto com arma em rede social e se gabando de uma vida de "esperteza e drogas". Alguns até são presos assim - quando calha de ofenderem algum policial da área deles.

    O "espertalhão" engrossa as fileiras da chamada "geração nem-nem":http://professorlfg.jusbrasil....

    Todo mundo por aqui sabe disso porque a gente já cansou de escutar os papos deles quando estão no buzão.

    O "espertalhão" típico é resultado de: 1 - falta de um sistema de ensino público decente; 2 - falta de orientação por parte da família, em alguns casos; 3 - uma cultura de merda que ensina que "trabalhar é coisa de otário"; 4 - falta de perspectiva: ver os pais trabalhando muito e ganhando pouco, e não querer ser isso, mas não ver saída pra crescer na vida (o que tem relação com o item 1).

    Agora vamos falar dos playboys?

    Antes de serem playboys sarados, eles eram meninos e meninas "bem criados" da zona sul que SEMPRE (coloca a média de idade deles aí em torno dos 22 - 24 anos) viram seu bairro ser atacado pelos arrastões. São pessoas que cansaram de saber que não podem ir na padaria, na academia, na esquina sem olhar 30 vezes pra todos os lados porque "naquele sinal ali fica malandro". São pessoas que cansaram de ver seus pais e avós serem agredidos, empurrados e pisoteados na rua. No caso de copacabana, não sei se vocês sabem, mas é um bairro conhecido por ser "bairro de velhinho". O que mais tem lá é senhorinha. E com frequência são os velhinhos que são empurrados no chão, esmurrados e pisoteados, pra serem assaltados.

    Os pais, tios, primos, vizinhos dos playboys são os donos da lanchonete ou da padaria que volta e meia é saqueada quando dá sol na praia.

    O playboy, ou a mãe do playboy, pega metrô e ônibus pra ir trabalhar no Centro e lida com cenas como a da reportagem que colei mais acima.

    O playboy já cansou de ver arrastão na praia, arrastão na rua, arrastão no sinal de trânsito, arrastão na padaria, arrastão aonde ele vai trabalhar, arrastão na noite, arrastão quando tá no engarrafamento.

    Mas adivinha? Isso não é exclusividade do Playboy.

    O mesmo ônibus que o playboy pega tem o cara lá de Nova Iguaçú fazendo baldeação. Que acorda 5h da manhã pra trabalhar. Ou mesmo de gente do subúrbio, que tb acorda 5h pq mora longe e o trânsito é uma merda. E tb da favela. Que pega cedo no serviço.

    Todas essas pessoas, das mais variadas faixas de renda, tentam ir à praia no domingo e sofrem com os arrastões, ou passam por isso durante a semana de trabalho. Mas só falam dos playboys. Dos "riquinhos alienados da Zona Sul".

    Por isso gostei muito quando a Ju falou em "cegueira ideológica" e é isso que rola mesmo no RJ. A realidade é que argumentos clichê de esquerda e argumentos reaças criaram uma discussão que nunca termina, que bate sempre na mesma tecla sobre os privilégios de uns / prejuízos de outros e não visualiza o prejuízo geral.

    A realidade é que nosso governo e nossa polícia usam a população - toda ela - como refém. A realidade é que esse problema é antigo, e que os policiais podem sim dar conta QUANDO QUEREM, mas quando não querem, deixam correr solto, porque o resultado disso muitas vezes é poder achacar comerciante pra que ali, naquela rua, não tenha baderna.

    Isso é assim porque é dessa maneira que o governo Cabral, que está aqui desde 2007 e continua através do Pezão, matendo desde o início o Beltrame como nosso secretário de segurança, mantêm as coisas. Isso é assim porque dar esse tipo de poder pra nossa polícia - de achacar os outros e "fazer seu salário" - é a forma que encontraram de manter uma tropa leal de delinquentes mal pagos achando que têm "o melhor emprego do mundo" e que farão qualquer absurdo que seus chefes mandarem pra manter esse privilégio.http://www.cartacapital.com.br...

    Isso é assim porque toda essa "guerra de classes" entre as idiossincrasias de ricos e pobres nesta cidade mantém todos distraídos enquanto nossos governantes nos fazem de reféns. É útil manter as pessoas irritadas e brigando entre si, porque assim elas aprovam redução de maioridade, elas aprovam que se faça "revista preventiva", aprovam qualquer absurdo que essas autoridades acharem útil.

    Isso que aconteceu em Copa nesse fim de semana, aconteceu porque o Beltrame quis. Aconteceu porque ele se sentiu desafiado. Aconteceu porque ele não gostou da pressão popular contra o autoritarismo de barrar gente pela cor da pele. Aconteceu porque "quem esse juizinho pensa que é?". Aconteceu porque o Beltrame mandou segurar a polícia, pode ter certeza. Tanto que, olha só a entrevista do moço já no dia seguinte da desgraça:http://g1.globo.com/rio-de-jan...

    Quem aí tem alguma dúvida de que eles podem tranquilamente mapear quem são esses jovens, ficha-los e montar um esquema pra pegar em flagrante com toda a facilidade do mundo, inviabilizando os arrastões até que os "espertalhões" se cansem?

    E tem sido assim há anos. Quer protestar contra o autoritarismo da polícia? Ok, te deixamos sem polícia quando você mais precisar. Vai lá, protesta agora.

    O "playboy justiceiro" sabe dessas coisas tanto quanto eu. Mas ele tá puto. Ele já tá possuído de raiva, ainda mais depois de tanto escutar que ele é "culpado dessa situação" por ser "da elite". Ele tá de saco cheio de escutar os "espertalhões" falarem sobre "como é bom ser vida loka" e tirar sarro da cara dele enquanto é assaltado e até esfaqueado e depois ouvir, de forma descontextualizada e banalizada, que esses caras são "vítimas da sociedade". Ele tá cansado de ouvir falar de opressor / oprimido, de tomar porrada e não poder fazer nada porque precisa esperar pela polícia, que o achaca, e porque seria "injusto" da parte dele.

    O "playboy justiceiro" tem altas chances de ser um cidadão completamente simplório, racista e cego pelo ódio, mas uma coisa não dá mais pra negar: são pessoas que já foram suficientemente agredidas.

    E não são os únicos.

    Do outro lado tem populações pobres que, desde a chegada das UPPs, também vem sendo cada vez mais agredidas. E mortas. E a culpa das mortes é jogada, muitas vezes, nas costas dos "cidadãos ricos opressores". Que putos, justificam isso dizendo "tem que matar mesmo!".

    Nisso, todo mundo tá com raiva, todo mundo tá certo e todo mundo perde a razão. E ninguém enxerga quem realmente manipula as cordinhas.

    O resultado é o RJ explodir, mesmo.
    Sim, eu parei de jogar de vez. Mas continuarei aqui no forum e, as vezes, no IRC.



  2. #2
    Ex-Presidente do Brasil Avatar de EddieJoe
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    Cara, eu concordo plenamente com esse comentário. Extremamente pertinente e com uma análise, na minha concepção, bem acertada.

    Recentemente eu apresentei um artigo em um congresso de História Política sobre o Lulismo, enquanto discurso político com algumas variantes do populismo que toma forma a partir de 2005, com a explosão do Mensalão. Um dos teóricos que eu trabalhei, o André Singer, em um dos seus livros comenta justamente sobre esse problema. Basicamente ele aponta o Mensalão como o marco para o discurso lulista, visto que a partir dele o embate ideológico existente no Brasil transforma-se de “esquerda” contra “direita” para um perpetuado entre “ricos” e “pobres” (o que vemos hoje). O subproletariado que antes não oferecia apoio ao PT, por consequência a Lula, possibilita o surgimento do lulismo enquanto discurso, bem como a permanência de Lula no poder, resultante das políticas adotadas durante o primeiro governo “petista” e os outros segmentos da sociedade, principalmente a classe média, que antes apoiavam o PT, com as denúncias de corrupção passam a apoiar o Partido da Social Democracia Brasileira – PSDB.

    Claro que isso é a análise desse teórico, contudo na minha perspectiva é uma situação que se agrava no Rio de Janeiro e que você pode observar em outros locais do país. Minha cidade, por exemplo, vive algo similar atualmente.

    Saindo um pouco da análise teórica e sendo um pouco mais pessoal eu me coloco na mesma situação dos "playboys". Não me enquadro enquanto um por diversos fatores, mas sou taxado assim. E realmente é algo que dá raiva. Esses dias eu estava discutindo com um colega de trabalho, um antropólogo, e ele defendendo essa argumentação de que os "brancos ricos" são os culpados por essa situação. Que o ideal seria fazer uma redistribuição de renda e que o assaltante não tem culpa daquilo. Eu fiquei puto porque uma amiga minha tinha acabado de ser assaltada naquela semana, ela é pobre, foi agredida, vai ter que fazer uma cirurgia de 6 mil reais pra arrumar a merda que o cara fez com ela e o cara me fala uma merda dessas. Quando eu falei dessa situação e perguntei se ele falaria pra ela que "o assaltante não tem culpa", ele desconversou e disse que a análise é teórica e não cabe nessa questão. Que merda de teoria é essa que morre no mundo das ideias?

    Referência: SINGER, André Vitor. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. 276p.
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